Tuesday, November 24, 2009

O BÁSICO PEDE SOCORRO.

Não sou a pessoa mais indicada para escrever sobre moda, nem sobre doenças do labirinto, mas o incômodo que o primeiro tema anda me causando não me deixou escolhas.

Após décadas de maturidade e monopólio, jeans e camiseta deixaram de ser itens básicos na gaveta do brasileiro.

Para constatar, basta uma simples caminhada por aí. O que se vê é um desfile de bolsos, zíperes transados, bordados e todo tipo de customização que embrulha o estômago só de lembrar.

- Olá, posso ajudar?
- Estou procurando um jeans.
- Esse com zíper longitudinal e banho de madrepérola na barra chegou hoje.
- Mas eu queria um mais basiquinho mesmo.
- Olha, o mais básico da loja tem sete bolsos e tachinhas na lateral, pode ser?

Do jeito que a coisa vai, os bolsos (e não a bolsa, como sempre imaginamos) é que vão levar o mundo à terceira grande guerra.

E nessa tsunami de tecido desnecessário, vale tudo para garantir o melhor que a onda pode oferecer: bolso falso, bolso canguru, bolso interno. Bolso sem fundo, bolso crocodilo, bolso família.

Para que diabos eu preciso de tantos compartimentos sobre as minhas pernas?

- Ei! Tá ligado o bolsão de trás?
- Quem, aquele folgadão?
- Ele mesmo. Não quero fazer fofoca, mas tão dizendo que ele anda mais na moda do que você.
- É, mas ele nunca vai ter dois zíperes e bordado gótico.
- É, isso lá é verdade. Vida longa ao rei!

É claro que um bolso nunca vem sozinho. Salmos, números colossais, frases de novela, piadas de salão. O lema é misturar o máximo de referências possíveis e costurar tudo juntinho sobre uma superfície de brim.

- Nossa, acho que engordei.
- Será que não é por causa desse monte de zíper da sua calça?
- Ah é, bem lembrado.

E não é só o jeans que anda sofrendo com essa era do exagero. O que aconteceu com as camisetas básicas brancas?

Sai o simples, entra o exagero. Sai o liso, entra o “efeito crepom amassado”. Sai a gola redonda, entra aquela em V até o umbigo.

Indústria da moda e do carnaval numa parceria nunca antes vista traduzem os malefícios nocivos do exagero e do desperdício: couro, brilhos, decalques, transparências, negativos de fotos, latinhas recicladas, vela derretida.

Imagino o quanto sofrem peças mais caretinhas durante o balé da centrifugação na máquina.

- Ah, não entro nessa máquina com esse jeans nem ferrando.
- Ih, qualé? Preconceito agora com o brow?
- Esses bolsos, esses brilhos, esse... esse... linguajar... Da última vez esse seu zíper decepou a manga daquela linda camisa floral.
- E ela se tornou uma bela regata.
- É, e agora compete na paraolimpíada da Sulfabril.

Pelo visto, nesse novo mundo onde o básico perdeu a vez, a única esperança que resta ao saudoso Hans Humboldt Hering, é transformar suas lojas conceito em museus. Na certa, vai continuar enchendo o bolso.

Tuesday, October 27, 2009

2016.

Tudo bem que eu perdi a queima de fogos e o super show do Lulu, mas perder a chance de falar sobre este grande acontecimento, ah, isso eu não ia.

Talvez por ter nascido em ano olímpico, goste tanto desse evento. Assisto absolutamente tudo. Comento, assopro com força aquela corneta plástica, torço sempre contra os Estados Unidos e a favor das ex-repúblicas soviéticas, principalmente, Geórgia, sabe-se lá por que.

- Pedro, volta pra novela.
- Mas amor! É quartas de final do badminton.
- Devolve o controle, Pedro!
- Calma linda, tá aqui.
- Agora dá o meu chipeee! Pedrooo!

Muita gente me parece contra a escolha da cidade maravilhosa. Não sei se é inveja ou só tipo mesmo. Fato é: vai ser bom pra todo mundo.

Há uma frente defendendo que o Brasil só está ganhando tudo quanto é disputa porque, segundo o calendário Maia, o mundo acaba em 2012, um ano após meu estoque pessoal de Phebo glicerina.

- O Rio espera o mundo de braços abertos.
- Não tinha nada mais criativo pra colocar, Samir?
- Vamos nessa que é bom a beça?
- Ai, Cristo!

Não se via tanto orgulho no semblante do carioca desde o fim de “As noivas de Copacabana” ou da vez em que o carro alegórico “de médico e louco todo mundo tem um pouco” pegou fogo.

- Aih rapá, manêro, vai valorizar geral: São Conrado, Urca, Arpoador, Barra.
- Por que você tá falando assim, Martins? Você nem é carioca? Tá bobo ou o quê?
- Ih, ó cara-aih, tirou onda, hein?
- Merda de Casseta.

Parágrafo hino: em caso de ouro, sugiro trocarmos a execução do hino nacional brasileiro, vide case Vanusa, por qualquer uma do Djavan que todo mundo conhece.

Também ouvi dizer que já estudam a confecção do mascote. Seria algo meio macaco, meio pau-brasil, meio Sarney. A Maritel já entrou na briga pela patente da pelúcia e a Dizzioli, pela dos doces cheios de conservantes.

- Diz que pode ir de sunga na cerimônia de abertura.
- Ih, maneiro.

Fico ansioso desde já para saber a curiosidade que os cartazes “filma eu, Galvão”, nas arquibancadas, vão suscitar na comunidade européia.

A inteligência americana vai achar que o comando vermelho simboliza a volta ao comunismo. A guerra fria voltará a se instaurar, dessa vez nos trópicas. A cortina de ferro será de cipós. E eu vou morrer de vergonha dos termos que os jornalistas vão achar para falar sobre isso.

“Ai... ai-ai-ai... ai-ai-ai-ai-ai-ai-ai... em cima embaixo puxa e vai”.

A saída dos estádios será um evento à parte: calabresa, pernil e dogão completo são algumas iguarias que um bando de turistas com pele de boto passarão a conhecer e respeitar.

- Me veah un Dugáun..
- Dogão, gringo burro.
- Gringow burrow

E como num trabalho de conclusão de curso universitário, tudo se resolverá na madrugada anterior à entrega, quando estádios, ginásios e alojamentos, ainda com cheirinho de Suvinil látex, serão inaugurados por algum candidato a reeleição, ou pelo Renato Aragão.

O fogo, a terra, a água, o ar, ou a paixão?
Quem vai acender a pira? Vale esperar para conferir.

Monday, October 05, 2009

IEMANJÁ RULES!

Não sei se já mencionei, mas sou completamente apaixonado por água.

Água de mar, de rio, de lagoa, piscina, represa, esguicho, enchente. E entre todas as opções, minha favorita é a salgada do mar.

- E pensar que ¾ desse lindo planeta são recobertos por água...
- Precisa dizer isso toda vez que a gente chega na praia, Samir? Que saco, esse Box do Telecurso 2000 tá te deixando insuportável.

Tem gente que consegue ir à praia e passar o dia todo sem nem sequer molhar os pés. Tá bom que eu exagero um pouco mas, peraí, ficar sem um mísero mergulhinho é de partir o coração.

Justo o mar que relaxa, acalma, refresca.

Dentro de sua água você é capaz de quase tudo, faz movimentos impensados em terra firme. Bóia, dá piruetas, mortais, parafusos. Torna-se um Diego Hipólito oceânico. OK, ele deve detestar água de mar e carne mal passada.

- E pensar que ¾ desse lindo planeta são recobertos por água...
- Cala a boca, Nemo!

Para o plantio de bananeiras a água salgada oferece a resistência perfeita para sua melhor execução. Vai lá, bonzão. Tenta fazer igual no seco.

Água no umbigo, sinal de perigo. Acredito que rimas como essa são mais perigosas e traiçoeiras do que as correntezas.

Mesmo assim, a água do mar pede respeito. Muito se engana quem pensa que basta chegar, jogar longe as chinelas e correr todos juntos na mesma direção, tipo futebol de primário.

Quando está frio, temos que ser fortes e seguir. Vale tudo, até apelar pra entrada de ladinho feminina. Sim, muitas vezes sacrifícios são pedidos em nome da hombridade. Acredite, regressar seco é muito pior do que tremendo de frio.

- Ué? O Machão não disse que tava louco pra entrar?
- Tava, mas achei melhor voltar.
- Por que? Tava friozinho, tava?
- Ah, cala essa boca e me empresta a canga.

Ou ainda:

- Nossa, mas por que será que essa água é tão gelada?
- Por que é o mar Morto, idiota.

O mar, além de banho, proporciona condução mais eficiente que os fretados. São os famosos jacarés, travessias que conduzem o banhista ao rasinho, cobrando, vez ou outra, uma tarifa simbólica, paga com a sunga ou a parte de baixo do biquíni.

Ao final do dia, quem achou que sairia ileso da praia recebe uma lambida oceânica de aviso, seguida de um leve sussurro de “ó se eu quisesse”, audível apenas para aqueles que beberam Campari.

A subida da maré pega mais gente de surpresa do que o time de animadores da rede Costa Cruzeiros.

- E pensar que ¾ desse lindo planeta são recobertos por água...
- Que bom que ¼ disso tudo é seu né, seu Minalba?
- Cala a boca, puxa-saco!

Definitivamente, Iemanjá rules!

Tuesday, September 08, 2009

A... STOP.

- C.
- Já foi.

Que atire a primeira Kilométrica (a caneta simpática) roída na tampa quem nunca jogou Stop.

Este jogo cultural vem ajudando há muitos e muitos séculos nosso cérebro a trabalhar, catequizando de forma alternativa a humanidade.

Cidades, estados e países. Ou, na gíria do stop, CEP. Os pensamentos vasculham cada caixinha empoeirada da nossa memória atrás dos fascículos da coleção “Atlas da Folha” em busca de algo bom com a letra “e”.

- Não, pode parar. Tá doido? Não valeu!
- Valeu sim.
- Esmeralda em cor até passa, mas Etérnia não existe, Rangel!

Não sei qual é o seu estilo de jogo. Eu curto as respostas mais elaboradas e até polêmicas, o que as vezes me impede de gritar a plenos pulmões “stop” antes dos outros.

Vi numa dessas revistas de academia que Power Stop e Truco Lift trabalham os mesmos músculos e queimam 800 calorias em 40 minutos.

Nêspera.

Não me lembro de sequer uma partida em vida que alguém não tenha colocado essa fruta com “n”.

Outros clássicos que aparecem logo atrás nas estatísticas são: Opala, macaco, Tânia, ferrugem, gelo, lhama, Dinamarca, e Fúlvio Stefanini, como ator.

Animais costumam liderar as reclamações endereçadas ao PROCON: dragão, dinossauro, Pikachu e Glomer (bichinho da Punky) não valem desde a assinatura do tratado de Varsóvia, aliás, uma ótima pedida para CEP com “v”.

- Camelô não é profissão! Não é profissão! Não é!!!
- Calma, Kassab. É só um jogo.

É fácil imaginar uma versão televisiva do jogo, com artifícios de ajuda, como os universitários e as cartas. Nesse caso, o jogador poderia perguntar frutas ao feirante, animais ao biólogo, carros ao mecânico e até marcas de cigarro à uma simpática freqüentadora de bingos.

Alguns jogadores gostavam ainda de inventar e propor novas categorias para aumentar o grau de dificuldade da disputa: bebidas; artistas falecidos; partes do corpo; etc. Na era mais nerd que se tem notícia, temo ver incorporada a categoria “comunidades de Orkut”.

- Minha sogra é?
- Bigoduda.
- Valmir!
- Que foi? Colocou o mesmo? Droga, devia ter ido de bastarda mesmo.
- Valmir!!!

Nunca, jamais, em hipótese alguma caia na besteira de incluir “minha sogra é?” se a disputa for contra esposas, noivas, namoradas, ou tico-tico-no-fubás.

Relacionamentos duradouros com o de Bonner e Fátima quase foram pro saco por conta disso. Aliás, Fátima vale em F, mas Bonner, que é sobrenome, não vale em B.

Na hora da contagem dos pontos testa-se a idoneidade e o caráter do participante. Algumas lojas de crediário usam o jogo, maquiado de cadastro, para ganhar a simpatia do comprador.

Por fim, lembro também da mag... - Stop!

Posso pelo menos terminar a palavra? - Não.

Monday, August 24, 2009

VOA COLIBRI.

Andar de avião é uma das experiências mais ricas que conheço.

A emoção começa logo no check-in, com as filas intermináveis de retirantes fugindo da seca empurrando carrinhos atulhados de bagagem.

Quando chega a sua vez de ser atendido, sempre bate um medinho de ter dado alguma zica.

- Lamento Senhor, este vôo e o contrato do Nuno Leal Maia com a Globo foram cancelados.
- Cancelado? Eu comprei essa merda de bilhete há mais de 3 meses pra não ter problema. Já tô com hotel reservado, carro alugado, city tour pago.
- Brincadeirinha. (e faz um “toutch” com a atendente do guichê ao lado)
- Quê???
- Embarque às 21h50, portão 9. Boa viagem. Próximo!

É hora de adivinhar que adoráveis e pitorescos espécimes estarão no ar fazendo companhia para você: o barbudo de turbante? A tiazinha da ala das baianas? Ou o sósia do Rocky Dennis? Quem terá o prazer de sentar-se ao seu lado?

Antes do suspense chegar ao fim você deve acondicionar sua bagagem de mão, que no caso de 90% dos passageiros nunca é de mão, sobrando apenas uma fresta para você guardar sua mochila, e os bibelôs de bisqui que quebram mais fácil que polegar de boneco Comandos em Ação.

Você se senta à janela e a cadeira ao seu lado fica vaga. O embarque está praticamente encerrado. Como sempre, você comemora antes da hora. Chega correndo um último passageiro. Adivinha onde ele vai se sentar?

(todo esbaforido) - Boa noite... que trânsito, rapaz.
- É.
- Corri que nem doido mas graças a Deus consegui embarcar.
- Sorte a sua.
- Sorte mesmo seria se a minha cueca não estivesse uma sopa. (e ri de forma gostosa)

Eu tenho um ímã que atrai desgraçados e algodão de camiseta básica branca pra dentro do meu umbigo.

O avião nem bem saiu do lugar, já apertam aquele botãozinho que emite um estampido seco, chamando a atenção de uma das aeromoças, ou comissárias, como preferem.

- Pois não, senhor?
- Só testado... gracinha. (o “gracinha” ele fala mais baixo, para que apenas o colega de setor, que viaja na poltrona ao lado, possa ouvir e comentar depois na firma)

Na hora da aulinha sobre procedimentos de emergência fico imaginando um monte de gente se divertindo com os acentos flutuantes num domingo de sol no The Waves.

Com o avião estabilizado na rota, surge aquela voz espiritual. Nunca vi piloto de voz fina. Ele diz que o tempo tá mudando, que é um prazer tê-los abordo, que o quilo do rabanete tá um absurdo, e que nunca mais se viu reclame da Zorba na TV.

Passa o carinho da comida. Neguinho de gravata e MBA no estrangeiro se comporta pior do que refugiado em dia de vista da ONU.

- Lamento, senhor. É apenas um por passageiro.
- Por um acaso a senhorita sabe com quem está falando?
- Sei Francis, você faz CCAA comigo.
- Ah é.

Após algumas horas, incômodas turbulências, e gente esbarrando a bunda no seu cotovelo, caso você esteja na poltrona do corredor, o aeroplano aterrissa.

Na hora de pegar as malas, aquela disputa velada para ver quem será o primeiro a ser presenteado pela esteira. Após meia hora de fé e esperança, a esteira pára em definitivo.

- Boa noite, é... acho que minha bagagem não veio.
- Um momento, por favor, vou tentar localizá-la.
- Que merda, isso sempre acontece comigo.
- Pronto senhor. Localizei-a. Parece que foi despachada para a casa do Nuno Leal Maia.
- Quê???
- Brincadeirinha. Tá aqui ó. Bem-vindo e esperamos revê-lo em breve.

Monday, July 20, 2009

OS SMARTPHONES NÃO LIGAM PRA VOCÊ.

Poucas coisas andam me irritando tanto quanto ver a raça humana sendo escravizada por BlackBerrys, Iphones e Nexteis.

Se você não quer ser apontado na rua ou olhado de cima a baixo no elevador de um rico centro empresarial, é bom ter um desses. Ou pelo menos, um Califórnia Racing bicolor.

O que andamos vendo por aí é um exército de pessoas hipnotizadas por teclas minúsculas e visores de cristal líquido, olhando eternamente para baixo, como o Mentor do He-Man em momentos de reflexão nos episódios mais tensos.

Quem usa aparelhos desta laia jura não estar viciado. Claro que não, darling!

Imagino um rico mercado para esses adesivos antiviciantes, como os de nicotina, para largar celulares e afins.

- Olá, meu nome é Duarte.
Todos – Oláááá, Duarte.
- Hoje eu completo um dia sem mandar ou receber torpedinho.
Todos – Parabééééns, Duarte.

E-mails, recados, fofocas e amenidades tornaram-se tão urgentes quanto a substituição do adorável amarelinho do SBT em ano de Copa.

Claro que essas pessoas devem ter uma vida bem mais corrida do que a minha, ou a sua, ou mesmo, que a de um plantonista do HC, que deve ter tempo sobrando pra conferir o Outlook a cada 10 segundos.

Prrrrr – Armando?
Prrrrr – Na escuta. Que manda?
Prrrrr – Nada. Só tava com saudade desse prrrrr.

Olhos nos olhos? Imagina. A cada dia que passa se torna mais difícil uma conversa franca, com foco e concentração entre as partes envolvidas. Cada vez mais, falamos com cocurutos.

Será que as pessoas estão mesmo se tornando mais e mais importantes e indispensáveis ou tudo não passa de um frenesi por um aparelho da moda, semelhante a corrida juvenil pelo Nike Air Max laranja?

sent from my BlackBerry
sent from my Iphone
sent from my Juicer Walita

Não, eu não preciso saber de que tipo de device, máquina ou engenhoca veio a mensagem. Sério.

Aliás, se eu souber que você entrou em contato comigo via orelhão, ficarei emocionado.

O que Alexander Graham Bell, o adorável inventor do telefone, pensaria ao ver no que seu invento se transformou?

Nada contra o avanço tecnológico. Mas nada a favor da sua vida sendo cada vez mais roubada por um aparelho que jura ser mais esperto que você.

Em tempo: smart é o gato, que já nasce de bigode.

Wednesday, May 27, 2009

DEZ A ZERO PRO MAGIPACK.

Em tantos anos de vida, se tem uma coisa que ainda não aprendi a fazer, além de limpar o umbigo, é cortar papel plástico, desse Magipack.

Se o SESI lançasse um curso técnico, juro que fazia.

Tem que haver uma regra, um tutorial, um passo a passo para criaturas unicelulares.

Sei lá: medir certo, puxar com força proporcional, cortar retinho e lacrar esticadinho. Diferente do que normalmente acontece: não achar a ponta do rolo, puxar menos do que o necessário, cortar torto, enroscar/engruvinhar.

O meu desperdício deste produto só não é maior do que o do ex-pivô Pipoca nos lances livres.

- Filho, você cobre o pirex com o Magipack?
- Prefiro um tiro de raspão.

Toda vez que a incômoda tarefa me cabe vejo um filme em câmera lenta passar na minha cabeça. Os atores são péssimos. Não há direção. Podemos ver o joelho do homem que segura o microfone. No filme há uma espécie de cabo de guerra entre dois condados vizinhos. O cabo é na verdade um pedaço deste plástico. A câmera afasta e vemos que entre os dois povoados há um lago vermelho borbulhante, na verdade, uma baixela com restos de macarronada ao sugo.

Ao meu entender, o maior problema envolvendo o uso deste produto está na ordem de grandeza. O pedaço cortado nunca é suficiente para cobrir com perfeição, sem que seja necessário o estica e puxa.

- Vem cá. Segura aqui essa parte com força.
- Peraí Marly! Você não me fez parar de fazer o inventário pra isso, né?
- É que não tem mais plástico no rolo.

Frios de supermercado merecem destaque neste assunto. A novela começa ao desembalá-los. Depois de tentar pela diplomacia, sempre acabo apelando, rasgando o invólucro de qualquer jeito, como uma criança avança num embrulho na noite de Natal.

Após tal barbaridade, se você não comer sozinho 350 gramas de salaminho cortados bem fininho, como o alimento voltará para a geladeira sem contaminar os companheiros de prateleira com seu odor característico? Se é que você ainda não reparou, novamente o uso do papel plástico será necessário.

Uma vez, enfurecido com minha ineficiência na ação, acabei me contundindo naquela parte dentada da embalagem, desenvolvida única e exclusivamente para facilitar o corte. A perda de sangue foi grande como o e-mail endereçado ao SAC da empresa.

Sempre que encontro algum alimento coberto na geladeira penso duas vezes antes de manuseá-lo. Prefiro passar fome do que abrir qualquer refratário coberto com o plástico.

Conheço gente que usa Magipack em tudo. Pra embalar controle remoto, produtos de geladeira em geral, móveis, parentes do interior. Tem gente que se enfaixa no produto antes de encarar a velocidade 10 na esteira do prédio. Diz que queima mais calorias. Arrã!

- Queridão, pega lá o Magic Plastic pra mim?
- Pega o quê?
- O troço de embalar as coisas.

Uma boa pegadinha seria embalar uma nota de cem dólares nesse plástico infernal. Seria dez a zero pro plástico, mas cem doleta no bolso. Vale?